Uma história idiota

 Só para não dizer que a bodega tá fechada vou publicar mais um texto inútil, que escrevi há muito tempo, pelo estilo da narração diriamos: ‘quando eu tinha cinco anos’. Hehe. Beijos e abraços apertados para os bodegueiros que não estão aqui.

“Era uma vez uma garotinha, ela estava muito triste e deprimida. O gatinho dela tinha morrido naquela manhã. O nome do gatinho era Paul, foi o pai da menininha que deu a ele esse nome por causa do Paul McCartney, mas o pessoal chamava de Pou mesmo, quase um Poe, de Edgar Allan Poe. Não se preucupe: ninguém arrancou um olho do Pou.

Pou morreu atropelado mesmo, por um caminhão que levava uns porcos pro abate na Sadia. Bola de Neve que após ser expulso da Fazenda dos bichos estava neste caminhão e relatou como foi o acidente que vitimou o pobre Pou:

- Meu!!! foi radical as parada, tá ligado??? o gato veio e foi indo e tava atravessando a rua né? daí tipo o seu Leôncio, motora né, não viu o magrão e ploft… foi sangue pra tudo que é lado, uma pena, se não tivesse esmagado tanto o bixano até dava pra fazer um espetinho de gato.

É bem… o Bola de Neve depois dos acontecidos na Revolução dos bichos ficou meio bolado.

Continuando a história a menininha ( que vai ser uma personagem sem nome, já que isso é super cult) estava muito triste com a morte de seu gatinho. Andando de cabeça baixa, sentindo frio e ouvindo um blues em seu mp3. Ao caminhar por uma das ruas não principais da cidade seus olhos se depararam com uma grande moeda prateada e ela pensou…’Eba!!! vou poder tomar um sorvete nesta noite fria e melancólica’. Mas daí se lembrou que apenas uma moeda não paga mais um sorvete  nestes tempos de Inflação. Mesmo assim se abaixou para pegar a moeda e não era qualquer moeda, nem uma moeda mágica! Dããã. Era uma moeda de cinco cruzeiros. Será que cinco cruzeiros dá pra comprar um sorvete? Alguém poderia me responder. Não souberam responder para a menininha. Daí ela teve que guardar aquela moeda inútil para sempre.  FIM”

Por Fabi.

O ele

Ele é um cara (cara?) normal. Nem alto, nem baixo, nem magro, nem gordo; nem careca, nem cabeludo. Tem pai, tem mãe e só, mas Ele nunca vai visitar seus pais, Ele é um homem (homem?) muito ocupado com o seu trabalho. Trabalha oito horas por dia com uma hora para o almoço, depois do serviço, não faz nada, mesmo assim é um homem muito ocupado. Também não tem esposa, nem filhos, nem um cachorro. Não torce pra nenhum time de futebol, muito menos de softbol. Não tem visão politica, nem ideais, nem uma filosofia de vida. Não está interessado no aquecimento glogal ou na nova conjuntura econômica, politica ou religiosa do país. Não tem nenhuma fantasia sexual, na verdade é praticamente assexuado. Não gosta de crianças, nem de flores, nem de música, muitos menos de pedras. Ele não lê Foucoult e nem Paulo Coelho. Mas uma coisa ele sabe: se vai chover amanhã. Todos os dias Ele assiste o telejornal quando chega do trabalho e o que ele mais gosta é a previsão do tempo.

Hoje Ele acordou muito bem disposto, por exemplo. Sabendo que uma nova formação de nuvens vindas da Argentina provocaria chuva ao fim da tarde. Mas pra Ele faça chuva ou faça sol, pouco importa, ele tem uma hora para o almoço. O arroz tá muito solto, o feijão tem muita pimenta, o bife passou do ponto, o tomate está verde e o ovo! Ah o ovo! Sempre o ovo. Faça me o favor! Quem tem coragem de comer ovo frito. Eca!!! E volta pro trabalho sem comer a sobremesa, Ele também não gosta de doce.

Senta e volta a fazer sabe se lá o que, nem ele sabe qual é o seu trabalho. Quando lhe perguntam qual a sua ocupação Ele diz: Assistente de Programação Administrativa de Motivação Pessoal (?). Mas na maioria das vezes ele prefere não responder nada, não gosta de conversar e acha o café a maior inutilidade já plantada, que só serve para seus colegas pararem de trabalhar e irem fazer fofoca. Que tal um cafezinho?Oh inutilidade! Até parece que as pessoas (pessoas?) não sabem que vai chover hoje! Droga, a chuva vai ajudar as plantações de café, de trigo, de laranja, levada, maconha… e todas os outros produtos que ajudam a distrair e corromper o mundo! e ainda chamam isso de diversão.

Para Ele a diversão não existe. Para Ele nada existe. Nem mesmo a chuva existe. Sim, porque a previsão do tempo errou, já são oito horas da noite e nada de chuva para refrescar o calor de 29 graus. De acordo com a previsão do tempo amanhã vai esfriar, por causa duma corrente de ar frio vinda do oceano Atlântico. O jornal acabou, já é hora de ir dormir. A noite foi feita para dormir. Escova os dentes e passa fio dental. Veste seu pijama dos ursinhos carinhosos que ganhou da sua vó, quando tinha 15 anos e separa num canto a roupa que usará amanhã: calça social, camisa pólo e casaco de lã.

Só uma coisa não muda…

Já que o Matte inaugurou a bodega falando de família, vou continuar nessa linha, um pouco diferente. Uma bodega é um lugar bastante propício pra divagar sobre relacionamentos… então, lá vai uma crônica “mela-cueca”… (gaita negra)

Oi, meu nome é Luiz: universitário; vinte e dois anos; um e oitenta de altura; setenta e dois quilos; branco; cabelos castanhos, ondulados e fartos; os olhos também são castanhos. Lamento se as garotas ficaram empolgadas… Calma! Sou hétero! Acontece que namoro desde os dezessete. Faço o tipo homem fiel, romântico, sensível e compreensivo. Daqueles que não é preciso pedir pra discutir a relação. É pra sogra nenhuma botar defeito! Se eu tivesse nascido algumas décadas atrás, seria o homem perfeito pra ir pro altar. Mas como os tempos são outros, eu e a minha Sophia estamos há cinco anos e meio, de namoro, sem saber o que vai ser do futuro. Ano passado concordamos em ser noivos, segredo só nosso e dos amigos mais próximos. Noivos sem aliança, porque agora isso não é importante pra nós. O que importa é estarmos juntos. E essa é a única certeza que temos, que ficaremos juntos.Casar… hum… pode até ser, se algumas coisinhas forem acordadas. Os tempos mudam mesmo, e as gerações vão se adaptando às novidades. Nossos pais, os meus e os dela, como “bons brasileiros” que eram na época do regime militar, católicos, eurodescendentes, “trabalhadores honestos”, construtores do progresso do país e de mão-de-obra (leia-se: bons reprodutores), casaram-se jovens e educaram seus brotinhos para uma vida cristã, de honra e obediência. Que nada! Nem mesmo eles resistiram aos últimos anos. Por enquanto, nenhum divórcio para “desestruturar” a família, mas de qualquer forma, nem todo exemplo dos pais é positivo. E olha só! Quem é que está falando em positivo e negativo? Logo eu, o senhor relatividade!Apesar da auto-descrição comportamental que fiz antes, não sou nada conservador dos costumes dos nossos pais. As únicas coisas que faço questão de preservar, se é que existiam mesmo na época, são o amor e o respeito. Minha mãezinha, pobre dela, viu o marido, antes tão religioso, abandonar de vez a igreja. E o pior, viu seu filhinho primogênito, eu mesmo, virar um ateu arrogante. Que tempos hein! É claro que ela tomou uma atitude séria: batizou-se em uma dessas “igrejas do sétimo dígito”. Casar… hum… pode até ser. Isso se eu convencer Sophia de que não é preciso uma igreja e um padre ou um cartório e um juiz. Afinal, o que é casamento? Ela ainda se acha católica, mas a sociedade laica já pegou ela e toda a família no “pacote realidade”.E o começo então! Foi num vinte e oito de março, Quinta-feira Santa, depois da missa. Quem diria! Eu só freqüentava a igreja porque não resistia a uma oportunidade de tocar violão e cantar para um público. Descobriram meu modesto talento, convidaram-me, e lá estava eu, compondo um dos ministérios de música da paróquia. Ainda não era tão ateu. Sophia fazia parte de outro ministério. Era responsável por projetar as letras dos hinos no telão. Ela começou a reparar em mim, até que, na tal Quinta-feira Santa, na praça, pediu para uma amiga interceder. Eu, adolescente, hormônios a flor da pele, nada bobo, ou bobo demais, fui direto.- Oi. Então você quer ficar comigo?- Hum… (no começo faltaram palavras, até que uma voz, que não parecia pertencer a ela, respondeu) …eu quero.A amiga ficou esperando até as onze da noite no outro lado da praça. Depois foram correndo para casa, pois já era tarde demais para duas garotinhas de quinze anos estarem na rua sozinhas, ou, o que é pior, acompanhadas de rapazes. Daí até o namoro rolaram uns dois meses. Do namoro escondido até o reconhecido pelos pais, mais uns três meses.Aurora do século XXI, início da “Era dos Ficantes”, e nós tendo que descobrir se estávamos ficando ou namorando. Nem vou tentar explicar. Só sei que optamos por namoro. Agora estamos tentando descobrir o que seremos daqui pra frente: noivos, casados, juntados, eternos namorados ou sei lá o que. Só sabemos que uma coisa não muda… precisamos um do outro, e ponto.Bah… tomara que não tenha ficado muito “mela cueca”. Odeio isso! Argh!

Indiscutível autoridade paterna (Inaugurando a bodega!)

Criaram essa bosta desse blog já faz mais de meio ano e ainda não postaram nada. Então Suzi Fabi Cami e companhia, vão tomar no meio dos seus cus (quando é no plural também não vai acento, não é?), estou inaugurando esse cocô…

Abraço

 

 

A INDISCUTÍVEL AUTORIDADE PATERNA

 

 

 -Ô Gustavo, é pra levantá que daqui a pouco nós vamo almoçá.

            O corpo permanecia imóvel na cama, e o fraco barulho de respiração, quase um ronco inaudível, misturava-se ao som do vento assoviando pelas frestas da veneziana, que impedia a luz de passar. O irmão estava parado na porta, por onde entrava a única claridade que iluminava o quarto e, como Gustavo não se mexeu, aproximou-se e repetiu, cutucando:

            - Ô Gustavo. Ô meu, já é onze horas. Levanta que tem que ir almoçá.

            Gustavo virou-se de leve para o lado, e abriu os olhos devagar. Afastou os cabelos do rosto e esfregou as pálpebras com os punhos, já que a visão estava embaçada. Na boca, o gosto seco e amargo de quem acabou de acordar, e o corpo, sem vontade, contrariava qualquer tentativa de levantar-se.

            - Que horas são? – perguntou Gustavo, coçando o saco com uma das mãos, e com a outra tateando o bidê em busca do relógio.

            - Onze horas meu. O pai pediu pra levantá que hoje nós vamo almoçá fora.

            - Ai que saco.           

            O quarto cheirava a suor. Nessas madrugadas quentes nem que dormisse nu e com a janela aberta e ventilador ligado conseguia impedir a transpiração. Precisava de um banho. A contragosto, levantou, escovou os dentes e entrou embaixo do chuveiro, deixando a água gelada despertar-lhe de imediato e lavar-lhe a pele salgada.

            Nesta manhã sentia-se muito melhor do que em todas as outras manhãs da última semana, em que acordara com fortes ressacas resultantes das displicências noturnas. Enquanto vestia-se, orgulhou-se de ter permanecido em casa na noite anterior lendo um livro, ao invés de ir encher a cara, como estava acostumado. Certamente, a recompensa veio no dia seguinte, quando pôde ir ao banheiro escovar os dentes pacientemente, e não precisou abraçar-se ao vaso para vomitar. E, passando a língua pela boca, pôde, com prazer, constatar que não sentia a corriqueira mistura de gosto etílico ao amargo de vômito.

            Quando caminhava em direção à cozinha para tomar um copo de água, passou em frente à porta do escritório onde seu pai trabalhava. Porra, em pleno sábado! Este era um serviço extra. O pai era bancário durante o dia, mas durante a noite e aos fins de semana exercia as atividades de contador para ganhar um dinheirinho a mais e para não ficar com a mente vazia. “Mente parada só pensa besteira”, dizia o pai, para justificar o excesso de serviço que assumia.

            Quando Gustavo passou pela porta do escritório, que estava aberta, o pai apenas olhou por cima do ombro e imediatamente chamou:

            - Gustavo.

            - Sim?

            - Tu vai almoçar com a gente? – perguntou, retornando os olhos para os papéis e calculadora.

            - Ué, não foi por isso que me acordaram?

            - Então o senhor vai trocar essas meias.

            - Quê?

            O pai parou de calcular, olhou para trás novamente, e repetiu.

            - Se quiser almoçar conosco, vai trocar essas meias.

            Gustavo olhou para os pés, sem entender. O par de meias vermelhas com listras pretas era um de seus favoritos. Mas, conhecendo o pai de longa data, sabia que não adiantava discutir, que era só para se incomodar. No mínimo ele achou minhas meias extravagantes demais para o seu status social. Imaginem só, o que as pessoas vão pensar se o filho do Leovandro aparecer vestido assim no restaurante! Vai ser um escândalo!            Gustavo preferiu guardar suas ironias para si. Não quis arranjar confusão logo pela manhã. Mas foi preciso muito esforço, pois aquelas mesquinharias todas do pai sempre lhe deixavam doido da vida. Implicar com minhas meias, veja só! Será que não tem nada melhor pra se preocupar?

            Dirigiu-se à cozinha e encheu um copo com água. Enquanto bebia, a mente divagava a respeito de coisas que estavam lhe perturbando: trabalhos da faculdade atrasados, o emprego excessivamente burocrático no banco que o deixava insatisfeito, a namorada que lhe prendia em amarras sentimentais e o isolava do mundo, além de outras coisas que costumam incomodar um jovem de classe média. Seu devaneio foi interrompido quando percebeu o reflexo do próprio rosto no vidro da janela da cozinha. Um rosto horrível. Meu deus, preciso cortar esses cabelos. E essas espinhas, que merda. E é melhor ir fazer essa barba. Merda. Eu, só nascendo de novo.

            Na verdade, as preocupações com a aparência eram um jeito de findar com todas as outras preocupações existenciais que sempre lhe enchiam o saco. Andava de um lado para o outro pensando no porque disso e daquilo, e, quando o cérebro começava a sentir-se esgotado, como se por uma autodefesa, fazia-lhe contemplar a própria imagem e devolvia-lhe, assim, uma enigmática resposta para tudo. Um sentido.

            Serviu mais água no copo e voltou a beber. O pai entrou na cozinha, apressado, fechando as janelas da casa. Olhou para Gustavo de cima a baixo, e disse:

            - Vai trocar essas meias.

            Gustavo não respondeu. Aparentando paciência, tomou vagarosamente a água do copo. Perdeu-se em devaneios por mais alguns minutos. O pai, tendo acabado de fechar todas as janelas do primeiro andar, voltou à cozinha:

            - Tá dormindo ainda? – disse, dando-lhe um tapa nas costas – Acorda, ninguém quer ficar te esperando, estamos com fome. E vai trocar as meias.

            O pai saiu e subiu as escadas para fechar as janelas no andar de cima. Essa era realmente uma característica de Gustavo: perder-se em pensamentos. Mas apenas uma característica, não sabia dizer se era um defeito ou uma virtude, estava apenas consciente de ser assim. Muitas vezes isso lhe causava sérios problemas. Quando estava tomando banho, desligava-se do mundo e passava trinta ou quarenta ou cinqüenta minutos embaixo do chuveiro, divagando, pensando, e o pai, raivoso, sempre batia na porta com força e berrava:

            - Vamos sair desse banho! Tá achando que eu sou teu escravo!? Não é a toa que a conta de água e de luz sempre tão nas alturas. Vou começar a te fazer pagar!

            Quando estava no serviço – era caixa de banco – atendendo aos clientes da sempre extensa fila, por vezes ouvia algum comentário ou presenciava alguma cena que lhe fazia pensar, e desligava-se. Passava a atender as pessoas automaticamente, mas estava com a cabeça em outro lugar. Freqüentemente, isso significava problemas para fechar o caixa no fim do dia, e lá ia Gustavo, tirar um pouco do seu salário para cobrir o furo.

            Apesar disso, mesmo sabendo de todos os problemas que “desligar-se” pode causar, não conseguia ser diferente. Acho que tenho alguma disfunção, sei lá, algum problema em prestar atenção nas coisas ao meu redor. E os amigos sempre falavam: Não sei como o Gustavo pode ser tão distraído, está sempre longe, viajando.

            Tão isso tudo é verdade que Gustavo estava no banheiro, barbeando-se, e parou-se para perguntar a si mesmo: nossa, como vim parar aqui? Chegou lá sem perceber, distraído que estava. Nem notou que o pai passou pela porta do quarto e lhe repetiu para que trocasse as meias. Não notou também quando passou o creme de barbear no rosto e quando começou a passar a gilete. Nada disso. Só notou quando a dor de um corte sob o nariz lhe fez despertar. Um veio de sangue começou a escorrer devagar, manchando de rosa a branca espuma do creme. E resolveu prestar mais atenção no que estava fazendo.

            Ouviu um barulho de buzina. O pai e o irmão já estavam no carro lhe esperando para partir ao encontro da mãe no restaurante. A buzina soou novamente: estavam impacientes. Pegou um pedaço de papel higiênico para cobrir o corte e desceu as escadas correndo. Quando entrou no carro, o pai olhou seus pés:

            - Eu não mandei trocar as meias? Tu tá me desafiando?

            - Ah, eu esqueci.

            - Não me desafie, piá, não me desafie.

            Gustavo não estava mentindo. Havia realmente esquecido de trocar as meias. Porra, eu tenho coisas tão mais importantes pra me preocupar! Odiava ser tratado daquele jeito autoritário e, apesar de estar acostumado com a prepotência do pai, não conseguia deixar de sentir raiva.

            Trocou as meias e voltou para o carro. O pai deu a partida e, enquanto tirava o carro de ré da garagem, foi dizendo, o rosto vermelho:

            - Tu sabe que eu não gosto que me desafiem!

            - Eu esqueci. Foi sem querer.

            - Tá sempre no mundo da lua. Sempre viajando. Quando vai acordar pra vida, meu filho? Olha as meias que tu tava usando.

            - Ah pai, pelo amor de deus.

            - Que foi? Vai me desafiar?

            O pai cutucava demais, aquele petulante. Gustavo irritou-se:

            - Ora, não era você que não queria ficar com a mente vazia? Acho que anda te ocupando com as coisas erradas, porque não está enchendo com nada isso daí – disse, cutucando com o nó dos dedos o crânio do pai.

            - O quê? – vociferou o pai, rosto vermelho.

            - Desse jeito, reparando na roupa dos outros, já começou mal…

            - Quê? Olha a boca!

            - Não tem nada melhor pra se importar?

            Gustavo perdia cada vez mais o controle da situação, e sabia disto, pois via o pai ficar cada vez mais vermelho de raiva, segurando-se para não lhe desferir um tapa, e cuspindo cada vez mais enquanto falava. Começaram a discutir desordenadamente, tornando a conversa ininteligível para o irmão, que acompanhava assustado àquilo tudo.

            - Não gosta de ser criticado, não é? Tudo isto é inteligência? – continuou Gustavo, com ironia na voz.

            - Tu te cuida!

            – Esta prepotência toda, esta vontade de ser o mandão, o dono da verdade, essa é a tua inteligência? tua mente ocupada?

Um barulho surdo e depois silêncio. O pai respirava ofegante, e Gustavo estava atônito congelado com a boca aberta, pronta para pronunciar uma palavra que fora silenciada pela agressão. Não acreditava que, aos vinte anos, ainda poderia apanhar do pai. Ficou com vontade de pegar o homem pelo pescoço, esganá-lo, esbofeteá-lo, recuperar seu orgulho perdido. Mas desistiu. Ainda dependia do pai, sob vários aspectos, e permaneceu submisso.

- Na volta vamos ter uma conversa séria.

Gustavo concordou com a cabeça. O rosto ainda pulsava no lugar onde fora atingido. O irmão estava assustado.

Ao chegar no restaurante, foi em direção ao banheiro sem perceber, mas apenas para cumprir o protocolo de lavar as mãos antes de comer. Novamente, despertou com sua imagem no espelho. Um rosto horrível. Meu deus, preciso cortar esses cabelos. E essas espinhas, que merda. Caralho, olha essa mancha na cara… todo mundo vai sacar que eu apanhei do velho. Merda.

Eu, só nascendo de novo.

E em outra família.

 

 

Matte!

Isso não é um post!

A Bodega costuma reunir os amigos, as conversas, filosofias, divagações, viagens, digressões, devaneios, sonhos de noites de verão (inverno, primavera e outono, também) regados a álcool, ou não. Esse é o objetivo desta bodega também.
Um bando de gente com idéias parecidas ou não, objetivos em comum, ou não, compilados em uma comunidade virtual, ou não, que subistitui a tão aclamada mesa de um bar, ou não. Traga a cerveja e coloque as suas cartas na mesa. Alguém vai concordar ou não com você. Truco!
Serão aceitos textos, frases e imagens de toda espécie… contraculturais… poesias malditas e não malditas; contos; desabafos; sonhos; viagens; pirações; desenhos; fotos; etc…. Mas por favor não coloque foto do seu cachorrinho poodle ou a sua sorte do dia no orkut! Dê preferência a temas bodegueiros, ou não: música, cinema, literatura, cultura em geral, no sentido antropológico da palavra, ou não.
Aqui você é una persona mui grata, desde que coloque cinco pila pra dividir o gole!

 Bodegueiras: Suzi e Fabi